Centro de Estudos em Fotografia de Tomar - Fotografia e Território
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Sob Vigia Dos Animais Antigos

Projetos
Fotógrafo: Maria Oliveira

Ano: 2012-2015
Concelho: Ponte de Lima

 

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Servindo-se de um copo apanhou do ar uma abelha. Reposicionou-a no centro da mesa com os lírios amarelos a fazer-lhe sombra. Ajoelhou-se puxada a norte e do corte que tinha no ombro alimentou-se do sangue e do mel. 

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Terá o mundo começado ruindo para dentro delas. Largas, disponíveis ao nascimento dos rios e à própria fermentação da terra. Ao início, apontaram o dedo ao centro, marcaram o ponto exacto da dor. 

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Deitou-se. Puxou o lençol, a poeira branca do mundo. Aos pés da cama drenava o corpo tranquilo de uma raposa.

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Nesse dia juntaram-se com o sol a pique. Sabiam que as viriam buscar com um animal cego para lhe chegarem azeite ao pêlo no ponto apropriado para a morte. E viradas de frente, à vez, esperavam chegar-se ao bafo branco abrindo com ele espaço nas partes mais apertadas do peito.

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Sentámo-nos à porta de manhã. Vimos como sacudiam a água das penas, os pássaros da ressurreição. Afiavam o bico no granito das casas. Rompiam uma das patas. Depois gomavam. Depois abriam em flor. 

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A mulher avisa-me que um animal vai parir. Passo as mãos por cuspe, tapo-lhe os olhos. Presencio o milagre do animal que chora. 

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Com o dedo fresco de carvão desenhou uma curva na pele e espiou o lume.

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Sento-me sempre à mesma porta para encarar o sol. Prefiro fazê-lo descalça, uma perna esticada sobre a outra. 

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Sei que o lugar em que agora me sento foi visitado pelo mar. Saúdo-lhe as profundezas como alguém que o ocupa de passagem. Recordo, tudo é corpo de abandono. 

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Não se pode identificar o lugar porque não o é. Houve um espaço na memória que se criou. Do mesmo modo que labaredas nos campos ou costuras bem feitas na barriga dos animais. Ou o dia de ontem. 

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Um lírio apareceu durante o dia e as aranhas mortas na saia propõem-se também a ser tecido. 

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Acordámos o mundo, a mão, a terra. Buscámos o pulso à madrugada. Regámos as flores por ordem de cor, por afeição ao chão. E brilharam-nos em conjunto os olhos.

 

 

Maria Oliveira. Nasceu em Ponte de Lima (1982) e reside actualmente no Porto.

Em 2020 obteve a Bolsa de Criação "Sustentar", Ci.clo Plataforma de Fotografia e editou o livro de autor ‘Guardar o fogo para dias de pouca luz’ pela Scopio Editions. Em 2019 participou na Bienal de Fotografia do Porto, nos Jardins do Palácio de Cristal, e na exposição “Now, for the future”, na Open Eye Gallery, em Liverpool. No mesmo ano, foi vencedora do prémio Novos Talentos FNAC e do Scopio Magazine International Photobook Contest, finalista do prémio de fotografia ESPY 2019 e obteve uma menção honrosa no 14th Julia Margaret Cameron Award. Em 2017 desenvolveu a exposição ‘Sedimento’ para o Colégio das Artes, Coimbra, que expôs também, em 2018, no Centro Interpretativo do Mundo Rural, Vimieiro. Entre 2016 e 2017 foi artista residente da Ci.clo - Plataforma de Fotografia onde desenvolveu o projecto “Guardar o fogo para dias de pouca luz” que integrou uma exposição coletiva itinerante patente no Centro Português de Fotografia (Porto), Fotofestiwal (Lodz), Escola de Artes Visuais (Nova Iorque), Museu do Douro (Régua), entre outros. O projecto “Sob vigia dos animais antigos” foi exposto, entre outros locais, no Festival FotoRio (Rio de Janeiro),Festival Outono Fotográfico (Ourense) e Galeria More Than A Gallery (Paris). Em 2011 o projecto “semente|seiva” foi exposto na Casa de Portugal (Macau), A Esmorga (Ourense) e Casa do Professor (Braga). Participou em diversas publicações e plataformas online como a Lenscratch, L'Oeil de la Photographie, Prism Photo Magazine, Phases Magazine, F-Stop Magazine, Photographic Museum of Humanity, Urbanautica , LensCulture, P3, entre outras. Integra a colecção do MAR-Museu de Arte do Rio e colecções privadas.

mariaoliveira.pt

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